Notícia

Revista Metálica

23/01/2009


Sustentabilidade: Estruturas Metálicas tem papel fundamental
Com a sustentabilidade em evidência, qual a sua opinião a respeito do assunto?


Certamente a sustentabilidade é um conceito muito popular hoje em dia. Espero, no entanto, que não seja uma moda passageira e que, efetivamente, seja aplicada e concretizada na prática da construção civil.

O setor da construção tem uma responsabilidade muito grande no que diz respeito aos objetivos gerais do Desenvolvimento Sustentável (DS). Por exemplo, em termos ambientais, o setor da construção consome cerca de 50% dos recursos naturais que são extraídos da crosta terrestre e contribui com igual percentagem para a produção de resíduos sólidos, resíduos esses que resultam da construção e demolição de estruturas e infraestruturas. Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o setor da construção consome aproximadamente 25 a 40% da energia utilizada. Além disso, na Europa, o ambiente construído é a maior fonte de emissão de gases com efeito estufa, e contribuindo com cerca de 40% das emissões a nível mundial. Em termos sócio-económicos, na Europa, a construção é o maior setor industrial (representando aproximadamente 10 a 11% do PIB) e providencia cerca de 7% de emprego em todo mundo.

É, portanto, fundamental compreender a necessidade de um setor mais sustentável e promover a sua concretização. A construção sustentável depende da responsabilidade de todos os intervenientes do setor, desde os profissionais (engenheiros, arquitetos, urbanistas, etc), passando por construtores, produtores e industriais, promotores imobiliários e outros, até aos próprios consumidores, os quais podem e devem ser mais exigentes no que diz respeito aos critérios utilizados na aquisição ou utilização de um imóvel. O sucesso da construção sustentável depende de todos eles.



O que vem a ser uma construção sustentável?

A construção sustentável resulta da aplicação dos objetivos do DS ao setor da construção, isto é, uma construção sustentável é aquela que é projetada tendo em consideração não só os aspectos tradicionais de segurança estrutural e economia, mas também os aspectos ambientais sociais, considerando, em todos os casos, o ciclo de vida da construção, desde a extração das matériasprimas necessárias para a produção dos materiais, até a sua demolição final. Os segmentos da construção, quer sejam edifícios, pontes, ou qualquer outro tipo de construção, possuem um período de vida útil muito longo e os impactos de uma obra, apesar de mais evidentes na fase inicial de construção, ocorrem ao longo de todo o seu ciclo de vida. A fase de operação de um edifício, por exemplo, é responsável pela maior parte de energia consumida no ciclo de vida desse edifício (entre 70 a 90%). Além disso, durante as diversas fases da vida de uma construção são frequentes os balanços de determinados impactos de uma etapa para a outra,

os quais só são tidos em consideração numa análise de ciclo de vida. Assim, uma construção sustentável é aquela que promove um ambiente construído mais eficiente, satisfazendo às necessidades da sociedade atual e sem comprometer as gerações futuras.



Como você descreve as vantagens do aço no que se refere à sustentabilidade?

O aço tem características que fazem dele um dos materiais com maior potencialidade no que diz respeito à Construção Sustentável (CS). A mais óbvia dessas características é a reciclagem. O aço pode ser reciclado inúmeras vezes sem perder as suas qualidades, contribuindo desta forma para a salvaguarda dos recursos naturais e para a minimização dos resíduos resultantes do fim de vida de uma estrutura. Nota-se que a produção de aço novo a partir de aço reciclado é um processo muito menos poluente do que a produção do aço novo a partir de matérias-primas. Outras das características do aço que ajudam a promover uma construção mais sustentável é a sua durabilidade esta associada à um projeto cuidado e pensado em termos de ciclo de vida, permite prolongar a vida útil de uma estrutura metálica muito além do período de vida de uma estrutura tradicional.

No entanto, não são só as características do aço que promovem os objetivos da CS, as estruturas metálicas também contribuem para os mesmos. A pré-fabricação de estruturas metálicas permite uma construção mais rápida e eficiente, com maior controle de qualidade e segurança para todos os intervenientes no processo construtivo. O processo de fabricação das estruturas metálicas promove simultaneamente um estaleiro mais organizado e eficiente, com menor nível de poluição e ruído.

Além disso, as estruturas metálicas facilitam a sua adaptação a novos requisitos funcionais, o que, levando em consideração o seu longo período de vida, se torna uma questão fundamental. Não poderia terminar de enumerar as vantagens das estruturas metálicas relativamente à CS sem falar do importante papel que desempenham na reabilitação de estruturas existentes, contribuindo, desta forma, para a preservação dos valores culturais e históricos das nossas cidades.



De que forma podemos medir estas vantagens?

Normalmente a avaliação da sustentabilidade de uma construção pode ser efetuada com base em duas metodologias distintas: análises de ciclo de vida ou sistemas de avaliação.

Como já me referi diversas vezes, as análises de ciclo de vida permitem verificar a complexa interação de uma construção com o meio ambiente ao longo do seu ciclo de vida. Este tipo de análise vai além do componente ambiental, levando em consideração os aspectos econômicos e sociais.

Os sistemas de avaliação da construção sustentável, os quais são normalmente aplicáveis a edifícios, avaliam o desempenho ambiental (e em alguns casos também o componente econômico) com base numa série de critérios, qualitativos e/ou quantitativos. A cada critério é atribuída uma pontuação, normalmente conduzindo à atribuição de um "label" ambiental de acordo com a classificação final obtida.

As vantagens e desvantagens de uma metodologia em relação a outra são demasiadamente complexas para serem aqui listadas, gostaria apenas de salientar que ambas são aplicáveis às estruturas metálicas.



Como podemos diminuir os impactos ambientais causados pela produção do aço?

De uma forma geral a indústria do aço é ainda uma indústria muito poluente. Há dois fatores que contribuem particularmente para esta situação: a emissão de gases com efeito estufa (especialmente CO2) e o consumo de energia. Nota-se, no entanto, que existe uma grande variabilidade nestes valores, a nível mundial, entre as várias indústrias produtoras de aço. Enquanto que na Europa, por exemplo, a produção do aço é feita com recurso às melhores tecnologias, em países como: Rússia, Ucrânia, China e a Índia, a maior parte do aço continua a ser produzido com base em tecnologias ultrapassadas e com matéria-primas de pouca qualidade. No entanto, estes países produzem cerca de 40% do aço no mundo! Assim, a redução de impactos ambientais passa naturalmente pela utilização de tecnologias menos poluentes e pela promoção de estratégias que conduzam a uma maior eficiência energética ao longo de todo o processo da produção de aço.



Conte-nos um pouco sobre a sua vinda ao Brasil como palestrante do Construmetal: Qual a sua avaliação deste evento para a expansão do uso do aço na construção civil?

Foi com muito prazer que participei do Construmetal 2008. Gostei muito da qualidade das comunicações técnicas apresentadas e da exposição. Fiquei particularmente supreendida pela qualidade dos trabalhos apresentados pelas universidades candidatas ao prêmio universitário, o que demonstra o interesse dos futuros profissionais pela construção metálica.

Acho extremamente importante a realização deste tipo de evento na promoção das estruturas metálicas. Além da promoção que o próprio evento proporciona na sociedade em geral, o diálogo, o estabelecimento de relações entre os vários intervenientes do setor e os benefícios para a competitividade. A interação entre a indústria, o meio acadêmico e os diversos profissionais permite um desenvolvimento tecnológico mais rápido e eficaz, conduzindo a um setor mais forte e com maior capacidade de resposta face ao restante do mercado.



O Brasil já alcançou maturidade suficiente na promoção e utilização do aço na construção? Estamos próximos da a Europa ou ainda nos falta um longo caminho?

Penso que a utilização do aço no Brasil tem ainda um caminho a percorrer. Se compararmos os valores relativos ao consumo do aço, per capita, no Brasil e na Europa, o consumo na Europa é cerca de 4 vezes superior ao do Brasil. Em termos de construção, o "share" relativo a construção de edifícios no Reino Unido é de 70% aproximadamente. Este valor não corresponde evidentemente a média européia, no entanto, o Brasil com um "share" de 4 a 5% indica igualmente algum defasamento relativo à média dos países europeus. No entanto, o potencial de crescimento das estruturas metálicas no Brasil é muito grande. A implementação de estratégias que conduzam à sustentabilidade da construção irá colocar novos desafios ao setor. Neste aspecto, as estruturas metálicas desempenham um papel preponderante e são extremamente competitivas, pois o futuro das estruturas metálicas no Brasil é bastante promissor.

Revista Metálica - Edição 90 - 2008

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